‘Em vez da restauração metálica ou de um implante sintético, teríamos um produto totalmente biológico.’

Experiência de brasileiros e americanos com animais abre caminho para regeneração dentária em seres humanos Roberta Jansen escreve para ‘O Globo’: Uma equipe de pesquisadores brasileiros e americanos induziu o desenvolvimento de dentes em ratos por meio de terapia com células-tronco adultas. O estudo, publicado na revista ‘Journal of Dental Research’, abre caminho para a criação de dentes humanos — uma técnica capaz de substituir as restaurações e os implantes odontológicos. No Brasil, cerca de 15% da população são totalmente desdentados e mais de 35% das pessoas acima dos 50 anos de idade não têm um só dente na boca, de acordo com pesquisa financiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e realizada pela Fiocruz este ano. ‘O objetivo é usar a técnica para repor totalmente um dente ou parte dele’, explicou a cirurgiã-dentista Mônica Duailibi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma das autoras do estudo. ‘Em vez da restauração metálica ou de um implante sintético, teríamos um produto totalmente biológico.’ Os cientistas da Unifesp, do Instituto Forsyth e do Massachusetts General Hospital, em Boston, nos Estados Unidos, partiram de uma experiência semelhante, realizada no Forsyth em 2002. Naquela ocasião, os especialistas conseguiram a regeneração de coroas dentárias de porcos também por meio de terapia celular. ‘Os sistemas em mamíferos tendem a funcionar de formas similares’, afirmou Pamela Yelick, do Instituto Forsyth, principal investigadora americana do projeto. ‘Ter dentes regenerados em uma segunda espécie de mamíferos nos permite acreditar que teremos sucesso similar com dentes humanos.’ Experiência com animais foi bem-sucedida Para induzir o desenvolvimento de novos dentes em ratos, os cientistas extraíram células-tronco adultas da mandíbula dos animais. As células-tronco são as mais primitivas do organismo, capazes de se transformar em qualquer tecido, sobretudo as embrionárias. Neste caso, no entanto, elas já se encontravam diferenciadas para a formação dos dentes. As células foram cultivadas em laboratório e, posteriormente, colocadas num molde em forma de dente de rato confeccionado em material biodegradável, absorvível pelo organismo. O molde preenchido com as células foi, então, implantado no abdômen de ratos. ‘Decidimos implantá-lo numa película do abdômen que envolve as vísceras porque ela é vascularizada, o que garante a nutrição das células’, explicou Mônica. Doze semanas depois da realização do implante, os cientistas constataram que o molde havia sido absorvido pelo organismo e dentes haviam se formado. Foram feitos 39 implantes e, de acordo com os pesquisadores, 65% deles resultaram em pequenos dentes. O passo seguinte foi tentar induzir o crescimento de dentes em seu devido lugar: a mandíbula dos ratos. ‘Estamos terminando a análise dos implantes em mandíbula’, revelou a pesquisadora. ‘Mas posso adiantar que os resultados foram satisfatórios.’ Testes em humanos podem começar em sete anos Mônica contou que a próxima etapa do estudo consistirá em usar células-tronco humanas para induzir a formação de dentes em animais e, finalmente, testar a técnica em humanos, o que só deverá acontecer dentro de sete a dez anos. Em humanos, a célula-tronco adulta já diferenciada para a formação de dentes (que só surge quando o dente está para nascer) poderia ser retirada daqueles que tem sisos em formação ou mesmo os chamados dentes supranumerários. ‘Mas, no caso dos adultos que não apresentem dentes em formação, as células poderiam ser retiradas da medula e induzidas a se diferenciar em células dentais’, explicou. (O Globo, 26/6)
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